PALAVRAS DE MÃE “Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser.” (JOÃO, 2: 5) O Evangelho é roteiro iluminado do qual Jesus é o centro divino. Nessa Carta da Redenção, rodeandolhe a figura celeste, existem palavras, lembranças, dádivas e indicações muito amadas dos que lhe foram legítimos colaboradores no mundo. Recebemos aí recordações amigas de Paulo, de João, de Pedro, de companheiros outros do Senhor, e que não poderemos esquecer. Temos igualmente, no Documento Sagrado, reminiscências de Maria. Examinemos suas preciosas palavras em Caná, cheias de sabedoria e amor materno. Geralmente, quando os filhos procuram a carinhosa intervenção de mãe é que se sentem órfãos de ânimo ou necessitados de alegria. Por isso mesmo, em todos os lugares do mundo, é comum observarmos filhos discutindo com os pais e chorando ante corações maternos. Interpretada com justiça por anjo tutelar do Cristianismo, às vezes é com imensas aflições que recorremos a Maria. Em verdade, o versículo do apóstolo João não se refere a paisagens dolorosas. O episódio ocorre numa festa de bodas, mas podemos aproveitarlhe a sublime expressão simbólica. Também nós estamos na festa de noivado do Evangelho com a Terra. Apesar dos quase vinte séculos decorridos, o júbilo ainda é de noivado, porquanto não se verificou até agora a perfeita união... Nesse grande concerto da idéia renovadora, somos serventes humildes. Em muitas ocasiões, esgotase o vinho da esperança. Sentimonos extenuados, desiludidos... Imploramos ternura maternal e eis que Maria nos responde: Fazei tudo quanto ele vos disser. O conselho é sábio e profundo e foi colocado no princípio dos trabalhos de salvação. Escutando semelhante advertência de Mãe, meditemos se realmente estaremos fazendo tudo quanto o Mestre nos disse. DOMÍNIO ESPIRITUAL “Não estou só, porque o Pai está comigo.” Jesus (JOÃO, 16: 32) Nos transes aflitivos a criatura demonstra sempre onde se localizam as forças exteriores que lhe subjugam a alma. Nas grandes horas de testemunho, no sofrimento ou na morte, os avarentos clamam pelas posses efêmeras, os arbitrários exigem a obediência de que se julgam credores, os supersentimentalistas reclamam o objeto de suas afeições. Jesus, todavia, no campo supremo das últimas horas terrestres, mostra-se absoluto senhor de si mesmo, ensinandonos a sublime identificação com os propósitos do Pai, como o mais avançado recurso de domínio próprio. Ligado naturalmente às mais diversas forças, no dia do Calvário não se prendeu a nenhuma delas. Atendia ao governo humano lealmente, mas Pilatos não o atemoriza. Respeitava a lei de Moisés; entretanto, Caifás não o impressiona. Amava enternecidamente os discípulos; contudo, as razões afetivas não lhe dominam o coração. Cultivava com admirável devotamento o seu trabalho de instruir e socorrer, curar e consolar; no ntanto, a possibilidade de permanecer não lhe seduz o espírito. O ato de Judas não lhe arranca maldições. A ingratidão dos beneficiados não lhe provoca desespero. O pranto das mulheres de Jerusalém não lhe entibia o ânimo firme. O sarcasmo da multidão não lhe quebra o silêncio. A cruz não lhe altera a serenidade. Suspenso no madeiro, roga desculpas para a ignorância do povo. Sua lição de domínio espiritual é profunda e imperecível. Revela a necessidade de sermos “nós mesmos”, nos transes mais escabrosos da vida, de consciência tranqüila elevada à Divina Justiça e de coração fiel dirigido pela Divina Vontade. NO QUADRO REAL “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os aborreceu, porque não são do mundo, assim como eu do mundo não sou.” Jesus (JOÃO, 17: 14) Aprendizes do Evangelho, à espera de facilidades humanas, constituirão sempre assembléias do engano voluntário. O Senhor não prometeu aos companheiros senão continuado esforço contra as sombras até a vitória final do bem. O cristão não é flor de ornamento para igrejas isoladas. É “sal da Terra”, força de preservação dos princípios divinos no santuário do mundo inteiro. A palavra de Jesus, nesse particular, não padece qualquer dúvida: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e sigame. Amai vossos inimigos. Orai pelos que vos perseguem e caluniam. Bendizei os que vos maldizem. Emprestai sem nada esperardes. Não julgueis para não serdes julgados. Entre vós, o maior seja servo de todos. Buscai a porta estreita. Eis que vos envio como ovelhas ao meio dos lobos. No mundo, tereis tribulações.” Mediante afirmativas tão claras, é impossível aguardar em Cristo um doador de vida fácil. Ninguém se aproxime d’Ele sem o desejo sincero de aprender a melhorarse. Se Cristianismo é esperança sublime, amor celeste e fé restauradora, é também trabalho, sacrifício, aperfeiçoamento incessante. Comprovando suas lições divinas, o Mestre Supremo viveu servindo e morreu na cruz. NA MEDITAÇÃO “E foram sós num barco para um lugar deserto.” (MARCOS, 6: 32) Tuas mãos permanecem extenuadas por fazer e desfazer. Teus olhos, naturalmente, estão cheios da angústia recolhida nas perturbações ambientes. Doente os pés nas recapitulações dolorosas. Teus sentimentos vão e vêm, através de impulsos tumultuáríos, influenciados por mil pessoas diversas. Tens o coração atormentado. É natural. Nossa mente sofre sede de paz, como a terra seca tem necessidade de água fria. Vem a um lugar à parte, no país de ti mesmo, a fim de repousar um pouco. Esquece as fronteiras sociais, os controles domésticos, as incompreensões dos parentes, os assuntos difíceis, os problemas inquietantes, as idéias inferiores. Retirate dos lugares comuns a que ainda te prendes. Concentra-te, por alguns minutos, em companhia do Cristo, no barco de teus pensamentos mais puros, sobre o mar das preocupações cotidianas... Ele te lavará a mente eivada de aflições. Balsamizará tuas úlceras. Darteá salutares alvitres. Basta que te cales e sua voz falará no sublime silêncio. Oferecelhe um coração valoroso na fé e na realização, e seus braços divinos farão o resto. Regressarás, então, aos círculos de luta, revigorado, forte e feliz. Teu coração com Ele, a fim de agires, com êxito, no vale do serviço. Ele contigo, para escalares, sem cansaço, a montanha da luz. NA ORAÇÃO “Senhor, ensina-nos a orar...” (LUCAS, 11: 1) A prece, nos círculos do Cristianismo, caracterizase por gradação infinita em suas manifestações, porque existem crentes de todos os matizes nos vários cursos da fé. Os seguidores inquietos reclamam a realização de propósitos inconstantes. Os egoístas exigem a solução de caprichos inferiores. Os ignorantes do bem chegam a rogar o mal para o próximo. Os tristes pedem a solidão com ociosidade. Os desesperados suplicam a morte. Inúmeros beneficiários do Evangelho imploram isso ou aquilo, com alusão à boa marcha dos negócios que lhes interessam a vida física. Em suma, buscam a fuga. Anelam somente a distância da dificuldade, do trabalho, da luta digna. Jesus suporta, paciente, todas as fileiras de candidatos do seu serviço, de sua iluminação, estendendolhes mãos benignas, tolerandolhes as queixas descabidas e as lágrimas inaceitáveis. Todavia, quando aceita alguém no discipulado definitivo, algo acontece no íntimo da alma contemplada pelo Senhor. Cessam as rogativas ruidosas. Acalmamse os desejos tumultuários. Convertese a oração em trabalho edificante. O discípulo nada reclama. E o Mestre, respondendolhe às orações, modificalhe a vontade, todos os dias, alijandolhe do pensamento os objetivos inferiores. O coração unido a Jesus é um servo alegre e silencioso. Disselhe o Mestre: Levantate e segueme. E ele ergueuse e seguiu. POSSES DEFINITIVAS “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” Jesus (JOÃO, 10: 10) Se a paz da criatura não consiste na abundância do que possui na Terra, depende da abundância de valores definitivos de que a alma é possuída. Em razão disso, o Divino Mestre veio até nós para que sejamos portadores de vida transbordante, repleta de luz, amor e eternidade. Em favor de nós mesmos, jamais deveríamos esquecer os dons substanciais a serem amealhados em nosso próprio espírito. No jogo de forças exteriores jamais encontraremos a iluminação necessária. Maravilhosa é a primavera terrena, mas o inverno virá depois dela. A mocidade do corpo é fase de embriagantes prazeres; no entanto, a velhice não tardará. O vaso físico mais íntegro e harmonioso experimentará, um dia, a enfermidade ou a morte. Toda a manifestação de existência na Terra é processo de transformação permanente. É imprescindível construir o castelo interior, de onde possamos erguer sentimentos aos campos mais altos da vida. Encheunos Jesus de sua presença sublime, não para que possuamos facilidades efêmeras, mas para sermos possuídos pelas riquezas imperecíveis; não para que nos cerquemos de favores externos e, sim, para concentrarmos em nós as aquisições definitivas. Sejamos portadores da vida imortal. Não nos visitou o Cristo, como doador de benefícios vulgares. Veio ligar nos a lâmpada do coração à usina do Amor de Deus, convertendonos em luzes inextinguíveis. BENS EXTERNOS “A vida de um homem não consiste na abundância das coisas que possui.” Jesus (LUCAS, 12: 15) “A vida de um homem não consiste na abundância das coisas que possui.” A palavra do Mestre está cheia de oportunidade para quaisquer círculos de atividade humana, em todos os tempos. Um homem poderá reter vasta porção de dinheiro. Porém, que fará dele? Poderá exercer extensa autoridade. Entretanto, como se comportará dentro dela? Poderá dispor de muitas propriedades. Todavia, de que modo utiliza os patrimônios provisórios? Terá muitos projetos elevados. Quantos edificou? Poderá guardar inúmeros ideais de perfeição. Mas estará atendendo aos nobres princípios de que é portador? Terá escrito milhares de páginas. Qual a substância de sua obra? Contará muitos anos de existência no corpo. No entanto, que fez do tempo? Poderá contar com numerosos amigos. Como se conduz perante as afeições que o cercam? Nossa vida não consiste da riqueza numérica de coisas e graças, aquisições nominais e títulos exteriores. Nossa paz e felicidade dependem do uso que fizermos, onde nos encontramos hoje, aqui e agora, das oportunidades e dons, situações e favores, recebidos do Altíssimo. Não procures amontoar levianamente o que deténs por empréstimo. Mobiliza, com critério, os recursos depositados em tuas mãos. O Senhor não te identificará pelos tesouros que ajuntaste, pelas bênçãos que retiveste, pelos anos que viveste no corpo físico. Reconhecerteá pelo emprego dos teus dons, pelo valor de tuas realizações e pelas obras que deixaste, em torno dos próprios pés. NÃO PERTURBEIS “Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” Jesus (MATEUS, 19: 6) A palavra divina não se refere apenas aos casos do coração. Os laços afetivos caracterizamse por alicerces sagrados e os compromissos conjugais ou domésticos sempre atendem a superiores desígnios. O homem não ludibriará os impositivos da lei, abusando de facilidades materiais para lisonjear os sentidos. Quebrando a ordem que lhe rege os caminhos, desorganizará a própria existência. Os princípios equilibrantes da vida surgirão sempre, corrigindo e restaurando... A advertência de Jesus, porém, apresenta para nós significação mais vasta. “Não separeis o que Deus ajuntou” corresponde também ao “não perturbeis o que Deus harmonizou”. Ninguém alegue desconhecimento do propósito divino, O dever, por mais duro, constitui sempre a Vontade do Senhor. E a consciência, sentinela vigilante do Eterno, a menos que esteja o homem dormindo no nível do bruto, permanece apta a discernir o que constitui “obrigação” e o que representa “fuga”. O Pai criou seres e reuniuos. Criou igualmente situações e coisas, ajustandoas para o bem comum. Quem desarmoniza as obras divinas, preparese para a recomposição. Quem lesa o Pai, algema o próprio “eu” aos resultados de sua ação infeliz e, por vezes, gasta séculos, desatando grilhões... Na atualidade terrestre, esmagadora percentagem dos homens constituise de milhões em serviço reparador, depois de haverem separado o que Deus ajuntou, perturbando, com o mal, o que a Providência estabelecera para o bem. Prestigiemos as organizações do Justo Juiz que a noção do dever identifica para nós em todos os quadros do mundo. Ás vezes, é possível perturbarlhe as obras com sorrisos, mas seremos invariavelmente forçados a reparálas com suor e lágrimas. NÃO CRER “Mas quem não crer será condenado.” Jesus (MARCOS, 16: 16) Os que não crêem são os que ficam. Para eles, todas as expressões da vida se reduzem a sensações finitas, destinadas à escura voragem da morte. Os que alçam o coração para a vida mais alta estão salvos. Seus dias de trabalho são degraus de infinita escada de luz. A custa de valoroso esforço e pesada luta, distanciamse dos semelhantes e, apesar de reconhecerem a própria imperfeição, classificam a paisagem em torno e identificam os caminhos evolutivos. Tomados de bom ânimo, sentemse na tarefa laboriosa de ascensão à montanha do amor e da sabedoria. No entanto, os que não crêem, limitam os próprios horizontes e nada enxergam senão com os olhos destinados ao sepulcro, adormecidos quanto à reflexão e ao discernimento. Afirmou Jesus que eles se encontram condenados. A primeira vista, semelhante declaração parece em desacordo com a magnanimidade do Mestre. Condenados a que e por quem? A justiça de Deus conjugase à misericórdia e o inferno semfim é imagem dogmática.Todavia, é imperioso reconhecer que quantos não crêem, na grandeza do próprio destino, sentenciam a si mesmos às mais baixas esferas da vida. Pelo hábito de apenas admitirem o visível, permanecerão beijando o pó, em razão da voluntária incapacidade de acesso aos planos superiores, enquanto os outros caminham para a certeza da vida imortal. A crença é lâmpada amiga, cujo clarão é mantido pelo infinito sol da fé. O vento da negação e da dúvida jamais consegue apagála. A descrença, contudo, só conhece a vida pelas sombras que os seus movimentos projetam e nada entende além da noite e do pântano a que se condena por deliberação própria. ESPEREMOS “Não esmagará a cana quebrada e não apagará o morrão que fumega, até que faça triunfar o juízo.” (MATEUS, 12: 20) Evita as sentenças definitivas, em face dos quadros formados pelo mal. Da lama do pântano, o Supremo Senhor aproveita a fertilidade. Da pedra áspera, valese da solidez. Da areia seca, retira utilidades valiosas. Da substância amarga, extrai remédio salutar. O criminoso de hoje pode ser prestimoso companheiro amanhã. O malfeitor, em certas circunstâncias, apresenta qualidades nobres, até então ignoradas, de que a vida se aproveita para gravar poemas de amor e luz. Deus não é autor de esmagamento. É Pai de misericórdia. Não destrói a cana quebrada, nem apaga o morrão que fumega. Suas mãos reparam estragos, seu hálito divino recompõe e renova sempre. Não desprezes, pois, as luzes vacilantes e as virtudes imprecisas. Não abandones a terra pantanosa, nem desampares o arvoredo sufocado pela erva daninha. Trabalha pelo bem e ajuda incessantemente. Se Deus, Senhor Absoluto da Eternidade, espera com paciência, por que motivo, nós outros, servos imperfeitos do trabalho relativo, não poderemos esperar? APROVEITEMOS “E destas coisas sois vós testemunhas.” (LUCAS, 24: 48) Jesus sempre aproveitou o mínimo para produzir o máximo. Com três anos de apostolado acendeu luzes para milênios. Congregando pequena assembléia de doze companheiros, renovou o mundo. Com uma pregação na montanha inspirou milhões de almas para a vida eterna. Converte a esmola de uma viúva em lição imperecível de solidariedade. Corrigindo alguns espíritos perturbados, transforma o sistema judiciário da Terra, erigindo o “amaivos uns aos outros” para a felicidade humana. De cinco pães e dois peixes, retira o alimento para milhares de famintos. Da ação de um Zaqueu bemintencionado, traça programa edificante para os mordomos da fortuna material. Da atitude de um fariseu orgulhoso, extrai a verdade que confunde os crentes menos sinceros. Curando alguns doentes, institui a medicina espiritual para todos os centros da Terra. Faz dum grão de mostarda maravilhoso símbolo do Reino de Deus. De uma dracma perdida, forma ensinamento inesquecível sobre o amor espiritual. De uma cruz grosseira, grava a maior lição de Divindade na História. De tudo isso somos testemunhas em nossa condição de beneficiários. Em razão de nosso conhecimento, convém ouvirmos a própria consciência. Que fazemos das bagatelas de nosso caminho? Estaremos aproveitando nossas oportunidades para fazer algo de bom? APROVEITEMOS “E destas coisas sois vós testemunhas.” (LUCAS, 24: 48) Jesus sempre aproveitou o mínimo para produzir o máximo. Com três anos de apostolado acendeu luzes para milênios. Congregando pequena assembléia de doze companheiros, renovou o mundo. Com uma pregação na montanha inspirou milhões de almas para a vida eterna. Converte a esmola de uma viúva em lição imperecível de solidariedade. Corrigindo alguns espíritos perturbados, transforma o sistema judiciário da Terra, erigindo o “amaivos uns aos outros” para a felicidade humana. De cinco pães e dois peixes, retira o alimento para milhares de famintos. Da ação de um Zaqueu bemintencionado, traça programa edificante para os mordomos da fortuna material. Da atitude de um fariseu orgulhoso, extrai a verdade que confunde os crentes menos sinceros. Curando alguns doentes, institui a medicina espiritual para todos os centros da Terra. Faz dum grão de mostarda maravilhoso símbolo do Reino de Deus. De uma dracma perdida, forma ensinamento inesquecível sobre o amor espiritual. De uma cruz grosseira, grava a maior lição de Divindade na História. De tudo isso somos testemunhas em nossa condição de beneficiários. Em razão de nosso conhecimento, convém ouvirmos a própria consciência. Que fazemos das bagatelas de nosso caminho? Estaremos aproveitando nossas oportunidades para fazer algo de bom? O VARÃO DA MACEDÔNIA “E Paulo teve de noite uma visão em que se apresentou, em pé, um varão da Macedônia e lhe rogou: Passa à Macedônia e ajuda-nos!” (ATOS, 16: 9) Além das atividades diárias na vida de relação, participam os homens de vasto movimento espiritual, cujas fases de intercâmbio nem sempre podem ser registradas pela memória vulgar. Não só os que demandam o sepulcro se comunicam pelo processo das vibrações psíquicas. Os espíritos encarnados fazem o mesmo, em identidade de circunstâncias, desde que se achem aptos a semelhantes realizações. Mais tarde, a generalidade das criaturas terrestres ampliará essas possibilidades, percebendolhes o admirável valor. Isso, aliás, não constitui novidade, pois, segundo vemos, Paulo de Tarso, em Tróade, recebe a visita espiritual de um varão da Macedônia, que lhe pede auxílio. A narração apostólica é muito clara. O amigo dos gentios tem uma visão em que lhe não surge uma figura angélica ou um mensageiro divino. Tratase de um homem da Macedônia que o exdoutor de Tarso identifica pelo vestuário e pelas palavras. É útil recordar semelhante ocorrência para que se consolide nos discípulos sinceros a certeza de que o Evangelho é portador de todos os ensinamentos essenciais e necessários, sem nos impor a necessidade de recorrer a nomenclaturas difíceis, distantes da simplicidade com que o Mestre nos legou a carta de redenção, na qual nos pede atenção amorosa e não teorias complicadas. A QUEM SEGUES? “Mas vós não aprendes-tes assim a Cristo.” Paulo (EFÉSIOS, 4: 20) O homem, como é natural, encontrará diversas sugestões no caminho. Não somente do plano material receberá certos alvitres tendentes a desviálo das realizações mais nobres. A esfera invisível, imediata ao circulo de suas cogitações, igualmente pode oferecer-lhe determinadas perspectivas que se não coadunam com os deveres elevados que a existência implica em si mesma. Na consideração desse problema, os discípulos sinceros compreendem a necessidade de sua centralização em Jesus Cristo. Quando esse imperativo é esquecido, as maiores perturbações podem ocorrer. O aprendiz menos centralizado nos ensinos do Mestre acredita que pode servir a dois senhores e, por vezes, chega a admitir que é possível atender a todos os desvairamentos dos sentidos, sem prejudicar a paz de sua alma. Justificamse, para isso, em doutrinas novas, filhas das novidades científicas do século; valemse de certos filósofos improvisados que conferem demasiado valor aos instintos; mas, chegados a esse ponto, preparemse para os grandes fracassos porque a necessidade de edificação espiritual permanece viva e cada vez mais imperiosa. Poderão recorrer aos conceitos dos pretensos sábios do mundo, entretanto, Jesus não ensinou assim. BATISMO “E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus.” ATOS, 19: 5) Nos vários departamentos da atividade cristã, em todos os tempos, surgem controvérsias relativamente aos problemas do batismo na fé. O sacerdócio criou, para isso, cerimoniais e sacramentos. Há batismos de recémnatos, na Igreja Romana; em outros centros evangélicos, há batismo de pessoas adultas. No entanto, o crente poderia analisar devidamente o assunto, extraindo melhores ilações com a ascendência da lógica. A renovação espiritual não se verificará tão só com o fato de se aplicar mais água ou menos água ou com a circunstância de processarse a solenidade exterior nessa ou naquela idade física do candidato. Determinadas cerimônias materiais, nesse sentido, eram compreensíveis nas épocas recuadas em que foram empregadas. Sabemos que o curso primário, na instrução infantil, necessita de colaboração de figuras para que a memória da criança atravesse os umbrais do conhecimento. O Evangelho, porém, nas suas luzes ocultas, faz imensa claridade sobre a questão do batismo. “E os que ouviram foram batizados em nome de Jesus.” Aí reside a sublime verdade. A bendita renovação da alma pertence àqueles que ouviram os ensinamentos do Mestre Divino, exercitandolhes a prática. Muitos recebem notícias do Evangelho, todos os dias, mas somente os que ouvem estarão transformados. FAZE ISSO E VIVERÁS “E disse-lhe: Respondes-te bem; faze isso, e viverás.” (LUCAS, 10: 28) O caso daquele doutor da Lei que interpelou o Mestre a respeito do que lhe competia fazer para herdar a vida eterna, revestese de grande interesse para quantos procuram a bênção do Cristo. A palavra de Lucas é altamente elucidativa. Não se surpreende Jesus com a pergunta, e, conhecendo a elevada condição intelectual do consulente, indaga acerca da sua concepção da Lei e fálo sentir que a resposta à interrogação já se achava nele mesmo, insculpida na tábua mental de seus conhecimentos. Respondeste bem, diz o Mestre. E acrescenta: Faze isso, e viverás. Semelhante afirmação destacase singularmente, porque o Cristo se dirigia a um homem em plena força de ação vital, declarando entretanto: Faze isso, e viverás. É que o viver não se circunscreve ao movimento do corpo, nem à exibição de certos títulos convencionais. Estendese a vida a esferas mais altas, a Outros campos de realização superior com a espiritualidade sublime. A mesma cena evangélica diariamente se repete em muitos setores. Grande número de aprendizes, plenamente integrados no conhecimento do dever que lhes compete, tocam a pedir orientação dos Mensageiros Divinos, quanto à melhor maneira de agir na Terra... a resposta, porém, está neles mesmos, em seus corações que temem a responsabilidade, a decisão e o serviço áspero... Se já foste banhado pela claridade da fé viva, se foste beneficiado pelos princípios da salvação, executa o que aprendeste do nosso Divino Mestre: Faze isso, e viverás. INTUIÇÃO “Porque a profecia jamais foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” (II PEDRO, 1: 21) Todos os homens participam dos poderes da intuição, no divino tabernáculo da consciência, e todos podem desenvolver suas possibilidades nesse sentido, no domínio da elevação espiritual. Não são fundamentalmente necessárias as grandes manifestações fenomênicas da mediunidade para que se estabeleçam movimentos de intercâmbio entre os planos visível e invisível. Todas as noções que dignificam a vida humana vieram da esfera superior. E essas idéias nobilitantes não se produziram por vontade de homem algum, porque os raciocínios propriamente terrestres sempre se inclinam para a materialidade em seu arraigado egoísmo. A revelação divina, significando o que a Humanidade possui de melhor, é cooperação da espiritualidade sublime, trazida às criaturas pelos colaboradores de Jesus, através da exemplificação, dos atos e das palavras dos homens retos que, a golpes de esforço próprio, quebram o círculo de vulgaridades que os rodeia, tornandose instrumentos de renovação necessária. A faculdade intuitiva é instituição universal. Através de seus recursos, recebe o homem terrestre as vibrações da vida mais alta, em contribuições religiosas, filosóficas, artísticas e científicas, ampliando conquistas sentimentais e culturais, colaboração essa que se verifica sempre, não pela vontade da criatura, mas pela concessão de Deus. ENTRE OS CRISTÃOS “Mas entre vós não será assim.” Jesus (MARCOS, 10: 43) Desde as eras mais remotas, trabalham os agrupamentos religiosos pela obtenção dos favores celestes. Nos tempos mais antigos, recordavase da Providência tãosó nas ocasiões dolorosas e graves. Os crentes ofereciam sacrifícios pela felicidade doméstica, quando a enfermidade lhes invadia a casa; as multidões edificavam templos, em surgindo calamidades públicas. Deus era compreendido apenas através dos dias felizes. A tempestade purificadora pertencia aos gênios perversos. Cristo, porém, inaugurou uma nova época. A humildade foi o seu caminho, o amor e o trabalho o seu exemplo, o martírio a sua palma de vitória. Deixou a compreensão de que, entre os seus discípulos, o princípio de fé jamais será o da conquista fácil de favores do céu, mas o de esforço ativo pela iluminação própria e pela execução dos desígnios de Deus, através das horas calmas ou tempestuosas da vida. A maior lição do Mestre dos Mestres é a de que ao invés de formularmos votos e sacrifícios convencionais, promessas e ações mecânicas, como a escapar dos deveres que nos competem, constituinos obrigação primária entregarmonos, humildes, aos sábios imperativos da Providência, submetendonos à vontade justa e misericordiosa de Deus, para que sejamos aprimorados em suas mãos. RENUNCIAR “E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto e herdará a vida eterna.” Jesus (MATEUS, 19: 29) Neste versículo do Evangelho de Mateus, o Mestre Divino nos induz ao dever de renunciar aos bens do mundo para alcançar a vida eterna. Há necessidade, proclama o Messias, de abandonar pai e mãe, mulher e irmãos do mundo. No entanto, é necessário esclarecer como renunciar. Jesus explica que o êxito pertencerá aos que assim procederem por amor de seu nome. A primeira vista, o alvitre divino parece contrasenso. Como olvidar os sagrados deveres da existência, se o Cristo veio até nós para santificálos? Os discípulos precipitados não souberam atingir o sentido do texto, nos tempos mais antigos. Numerosos irmãos de ideal recolheramse à sombra do claustro, esquecendo obrigações superiores e inadiáveis. Fácil, porém, reconhecer como o Cristo renunciou. Aos companheiros que o abandonaram aparece, glorioso, na ressurreição. Não obstante as hesitações dos amigos, divide com eles, no cenáculo, os júbilos eternos. Aos homens ingratos que o crucificaram oferece sublime roteiro de salvação com o Evangelho e nunca se descuidou um minuto das criaturas. Observemos, portanto, o que representa renunciar por amor ao Cristo. É perder as esperanças da Terra, conquistando as do Céu. Se os pais são incompreensíveis, se a companheira é ingrata, se os irmãos parecem cruéis, é preciso renunciar à alegria de têlos melhores ou perfeitos, unindo nos, ainda mais, a eles todos, a fim de trabalhar no aperfeiçoamento com Jesus. Acaso, não encontras compreensão no lar? Os amigos e irmãos são indiferentes e rudes? Permanece ao lado deles, mesmo assim, esperando para mais tarde o júbilo de encontrar os que se afinam perfeitamente contigo. Somente desse modo renunciarás aos teus, fazendolhes todo o bem por dedicação ao Mestre, e, somente com semelhante renúncia, alcançarás a vida eterna. PASSES “E rogava-lhe muito, dizendo: Minha filha está moribunda; rogote que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare, e viva.” (MARCOS, 5: 23) Jesus impunha as mãos nos enfermos e transmitialhes os bens da saúde. Seu amoroso poder conhecia os menores desequilíbrios da Natureza e os recursos para restaurar a harmonia indispensável. Nenhum ato do Divino Mestre é destituído de significação. Reconhecendo essa verdade, os apóstolos passaram a impor as mãos fraternas em nome do Senhore tornavamse instrumentos da Divina Misericórdia. Atualmente, no Cristianismo redivivo, temos, de novo, o movimento socorrista do plano invisível, através da imposição das mãos. Os passes, como transfusões de forças psíquicas, em que preciosas energias espirituais fluem os mensageiros do Cristo para os doadores e beneficiários, representam a continuidade do esforço do Mestre para atenuar os sofrimentos do mundo. Seria audácia por parte dos discípulos novos a expectativa de resultados tão sublimes quanto os obtidos por Jesus junto aos paralíticos, perturbados e agonizantes. O Mestre sabe, enquanto nós outros estamos aprendendo a conhecer. É necessário, contudo, não desprezarlhe a lição, continuando, por nossa vez, a obra de amor, através das mãos fraternas. Onde exista sincera atitude mental do bem, pode estenderse o serviço providencial de Jesus. Não importa a fórmula exterior. Cumprenos reconhecer que o bem pode e deve ser ministrado em seu nome.
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