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VINDA DO REINO

“O reino de Deus não vem com aparência exterior.”  Jesus (LUCAS, 17: 20)

Os  agrupamentos  religiosos  no  mundo  permanecem,  quase  sempre,
preocupados  pelas  conversões  alheias.  Os  crentes  mais  entusiastas  anseiam  por transformar  as  concepções  dos  amigos.  Em  vista  disso,  em  toda  parte  somos defrontados por irmãos aflitos pela dilatação do proselitismo em seus círculos de estudo.
Semelhante atividade nem sempre é útil, porquanto, em muitas ocasiões,
pode perturbar elevados projetos em realização.
Afirma  Jesus  que  o  Reino  de  Deus  não vem  com  aparência  exterior.  É
sempre ruinosa a preocupação or demonstrar pompas e números vaidosamente, nos
grupos da fé. Expressões transitórias de poder humano não atestam o Reino de Deus.
A realização divina começará do íntimo das criaturas, constituindo gloriosa luz do
templo  interno.  Não  surge  à  comum  apreciação,  porque  a  maioria  dos  homens transitam  semi­cegos,  através  do  túnel  da  carne,  sepultando  os  erros  do  passado culposo.
A carne é digna e venerável, pois é vaso de purificação, recebendo­nos para
o  resgate  preciso;  entretanto,  para  os  espíritos  redimidos  significa  “morte”  ou
“transformação permanente”. O homem carnal, em vista das circunstâncias que lhe
governam  o  esforço,  pode  ver  somente  o  que  está  “morto”  ou  aquilo  que  “vai morrer”. O Reino de Deus, porém, divino e imortal, escapa naturalmente à visão dos humanos.

DAR

“E dá a qualquer que te pedir; e, ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir.” Jesus (LUCAS, 6: 30)

O ato de dar é dos mais sublimes nas operações da
vida; entretanto, muitos homens são displicentes e incompreensíveis na
execução dele.

Alguns distribuem esmolas levianamente, outros se
esquecem da vigilância, entregando seu trabalho a malfeitores.

Jesus  é  nosso  Mestre  nas  ocorrências  mínimas.  E  se  ouvimo­-lo recomendando estejamos prontos a dar “a qualquer”
que pedir, vemo­lo atendendo a todas as criaturas do seu caminho, não de acordo com os

caprichos, mas segundo as necessidades.
Concedeu  bem­aventuranças  aos  aflitos  e  advertências  aos  vendilhões.
Certo,  os  mercadores  de  má­fé, no  íntimo, rogavam­lhe a  manutenção  do  “statu
quo”, mas sua resposta foi eloqüente. Deu alegrias nas bodas de Caná e repreensões em assembléias dos discípulos. Proporcionou a cada situação e a cada personalidade
o que necessitavam e, quando os ingratos lhe tomaram o direito da própria vida, aos
olhos da Humanidade, não voltou o Cristo a pedir­lhes que o deixassem na obra começada.
Deu  tudo  o  que  se  coadunava  com  o  bem.  E  deu  com  abundância,
salientando­se que, sob o peso da cruz, conferiu sublime compreensão à ignorância geral, sem reclamação de qualquer natureza, porque sabia que o ato de dar vem de Deus e nada mais sagrado que colaborar com o Pai que está nos céus.

NEM TODOS

“E  aconteceu  que,  quase  oito  dias  depois  destas palavras, tomou consigo a Pedro, a João e a Tiago, e subiu ao monte a orar.” (LUCAS, 9: 28)

Digna de notar­se a atitude do Mestre, convidando apenas Simão e os filhos de Zebedeu para presenciarem a sublime manifestação
do monte, quando Moisés e
outro  emissário  divino  estariam  em  contacto  direto  com  Jesus,  aos  olhos  dos
discípulos.
Por que não convocou os demais companheiros?
Acaso Filipe ou André não teriam prazer na sublime
revelação? Não era Tomé um companheiro indagador, ansioso por equações
espirituais? No entanto, o
Mestre  sabia  a  causa  de  suas  decisões  e  somente  Ele  poderia  dosar, convenientemente, as dádivas do conhecimento superior.
O  fato  deve  ser  lembrado  por  quantos  desejem  forçar  a porta  do  plano
espiritual.
Certo, o intercâmbio com esse ou aquele núcleo de entidades do Além é
possível,  mas  nem  todos  estão  preparados,  a  um  só  tempo,  para  a  recepção  de
responsabilidades ou benefícios.
Não se confia, imprudentemente, um aparelho de produção preciosa, cujo
manejo dependa de competência prévia, ao primeiro homem que surja, tomado de
bons  desejos.  Não  se  atraiçoa  impunemente  a  ordem  natural.  Nem  todos  os
aprendizes e estudiosos receberão do Além, num pronto, as grandes revelações.
Cada núcleo de atividade espiritualizante deve ser presidido pelo melhor
senso de harmonia, esforço e afinidade. Nesse mister, além das boas intenções é
indispensável a apresentação da ficha de bons trabalhos pessoais. E, no mundo, toda
gente  permanece  disposta  a  querer  isso  ou  aquilo,  mas  raríssimas  criaturas  se
prontificam a servir e a educar-­se.

A ESPADA SIMBÓLICA 

“Não  cuideis  que  vim  trazer  a  paz  à  Terra;  não  vim trazer a paz, mas a espada.” Jesus (MATEUS, 10: 34) 

Inúmeros  leitores  do  Evangelho  perturbam­se  ante  essas  afirmativas  do Mestre Divino, porquanto o conceito de paz, entre os homens, desde muitos séculos foi  visceralmente viciado. Na expressão comum, ter paz significa haver atingido garantias exteriores, dentro das quais possa o corpo vegetar sem cuidados, rodeando­ se  o  homem  de  servidores,  apodrecendo  na  ociosidade  e  ausentando-­se  dos movimentos da vida. 
Jesus não poderia endossar tranqüilidade desse jaez, e, em contraposição ao falso princípio estabelecido no mundo, trouxe consigo a luta regeneradora, a espada simbólica do conhecimento interior pela revelação divina, a fim de que o homem inicie a batalha do aperfeiçoamento em si mesmo. O Mestre veio instalar o combate da redenção sobre a Terra. Desde o seu ensinamento primeiro, foi formada a frente da batalha sem sangue, destinada à iluminação do caminho humano. E Ele mesmo foi o primeiro a inaugurar o testemunho pelos sacrifícios supremos. 
Há quase vinte séculos vive a Terra sob esses impulsos renovadores, e ai daqueles que dormem, estranhos ao processo santificante! 
Buscar a mentirosa paz da ociosidade é desviar­se da luz, fugindo à vida e precipitando a morte. 
No entanto, Jesus é também chamado o Príncipe da Paz. 
Sim, na verdade o Cristo trouxe ao mundo a espada renovadora da guerra contra o mal, constituindo em si mesmo a divina fonte de repouso aos corações que se  unem  ao  seu  amor;  esses,  nas  mais  perigosas  situações  da  Terra,  encontram, n’Ele, a serenidade inalterável. É que Jesus começou o combate de salvação para a Humanidade, representando, ao mesmo tempo, o sustentáculo da paz sublime para todos os homens bons e sinceros.

ESTIMA DO MUNDO

“Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” Jesus (MATEUS, 10: 25) 

Muitos  discípulos  do  Evangelho  existem,  ciosos  de  suas  predileções  e pontos de vista, no campo individual. 
Falsas concepções ensombram­lhes o olhar. 
Quase sempre se inquietam pelo reconhecimento público das virtudes que lhes exornam o caráter, guardam o secreto propósito de obter a admiração de todos e sentem-­se prejudicados se as autoridades transitórias do mundo não lhes conferem apreço. 
Agem esquecidos de que o Reino de Deus não vem com aparência exterior; não  percebem  que,  por  enquanto,  somente  os  vultos  destacados,  nas  vanguardas financeiras  ou  políticas,  arvoram­se  em  detentores  de  prerrogativas  terrestres, senhores quase absolutos das homenagens pessoais e dos necrológios brilhantes. 
Os filhos do Reino Divino sobressaem raramente e, de modo geral, enchem o mundo de benefícios sem que o homem os veja, à feição do que ocorre com o próprio Pai. 
Se Jesus foi chamado feiticeiro, crucificado como malfeitor e arrebatado de sua  amorosa  missão  para  o  madeiro  afrontoso,  que  não  devem  esperar  seus aprendizes sinceros, quando verdadeiramente devotados à sua causa? 
O  discípulo  não  pode  ignorar  que  a  permanência  na  Terra  decorre  da necessidade de trabalho proveitoso e não do uso de vantagens efêmeras que, em muitos casos, lhe anulariam a capacidade de servir. 
Se a força humana torturou o Cristo, não deixará de torturá­lo também. É ilógico disputar a estima de um mundo que, mais tarde, será compelido a regenerar­ se para obter a redenção.

O CRISTÃO E O MUNDO

“Primeiro a erva, depois a espiga e, por último, o grão cheio na espiga.” Jesus (MARCOS, 4: 28) 

Ninguém  julgue  fácil  a  aquisição  de  um  título  referente  à  elevação espiritual.  O  Mestre  recorreu  sabiamente  aos  símbolos  vivos  da  Natureza, favorecendo-nos a compreensão. 
A  erva  está  longe  da  espiga,  como  a  espiga  permanece  distanciada  dos grãos maduros. 
Nesse  capítulo,  o  mais  forte  adversário  da  alma  que  deseja  seguir  o Salvador, é o próprio mundo. 
Quando  o  homem  comum  descansa  nas  vulgaridades  e  inutilidades  da existência terrestre, ninguém lhe examina os passos. Suas atitudes não interessam a quem  quer  que  seja.  Todavia,  em  lhe  surgindo  no  coração  a  erva  tenra  da  fé retificadora, sua vida passa a constituir objeto de curiosidade para a multidão. 
Milhares de olhos, que o não viram quando desviado na ignorância e na indiferença,  seguem­-lhe,  agora,  os  gestos  mínimos  com  acentuada  vigilância.  O pobre  aspirante  ao  título  de  discípulo  do  Senhor  ainda  não  passa  de  folhagem promissora e já lhe reclamam espigas das obras celestes; conserva-­se ainda longe da primeira penugem das asas espirituais e já se lhe exigem vôos supremos sobre as misérias humanas. 
Muitos aprendizes desanimam e voltam para o lodo, onde os companheiros não os vejam. 
Esquece­se  o  mundo  de  que  essas  almas  ansiosas  ainda  se  acham  nas primeiras esperanças e, por isso mesmo, em disputas mais ásperas por rebentar o casulo das paixões inferiores na aspiração de subir; dentro da velha ignorância, que lhe  é  característica,  a multidão  só  entende  o  homem na animalidade  em  que  se compraz  ou,  então,  se  o  companheiro  pretende  elevar­se,  lhe  exige,  de  pronto, credenciais positivas do céu, olvidando que ninguém pode trair o tempo ou enganar o espírito de seqüência da Natureza. 
Resta  ao  cristão  cultivar  seus  propósitos  sublimes  e  ouvir  o  Mestre: Primeiro a erva, depois a espiga e, por último, o grão cheio na espiga.

TUDO EM DEUS

“Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma.”  Jesus (JOÃO, 5: 30)

Constitui ótimo exercício contra a vaidade pessoal a meditação nos fatores transcendentes que regem os mínimos fenômenos da vida.
O homem nada pode sem Deus.
Todos  temos  visto  personalidades  que  surgem  dominadoras  no  palco terrestre, afirmando­se poderosas sem o amparo do Altíssimo; entretanto, a única
realização que conseguem efetivamente é a dilatação ilusória pelo sopro do mundo, esvaziando­se aos primeiros contactos com as verdades divinas.
Quando  aparecem,  temíveis,  esses  gigantes  de  vento  espalham  ruínas materiais e aflições de espírito; todavia, o mesmo mundo que lhes confere pedestal
projeta­os  no  abismo  do  desprezo  comum;  a  mesma  multidão  que  os  assopra incumbe­se de repô­los no lugar que lhes compete.
Os  discípulos  sinceros  não  ignoram  que  todas  as  suas  possibilidades procedem do Pai amigo e sábio, que as oportunidades de edificação na Terra, com a excelência das paisagens, recursos de cada dia e bênçãos dos seres amados, vieram de Deus que os convida, pelo espírito de serviço, a ministérios mais santos; agirão, desse  modo,  amando  sempre,  aproveitando  para  o  bem  e  esclarecendo  para  a verdade,  retificando  caminhos  e  acendendo  novas  luzes,  porque seus corações reconhecem que nada poderão fazer de si próprios e honrarão o Pai, entrando em santa cooperação nas suas obras.

AUXÍLIOS DO INVISÍVEL

“E, depois de passarem a primeira e segunda guarda,
chegaram à porta de ferro, que dá para a cidade,
a qual se lhes abriu por si mesma; e, tendo saído,
percorreram uma rua e logo o anjo se apartou dele.”
(ATOS, 12: 10)

Os homens esperam sempre ansiosamente o auxílio do plano espiritual. Não importa o nome pelo qual se designe esse amparo. Na essência é invariavelmente o mesmo, embora seja conhecido entre os espiritistas por “proteção dos guias” e nos círculos protestantes por “manifestações do Espírito Santo”.
As denominações apresentam interesse secundário.
Essencial é considerarmos que semelhante colaboração constitui elemento vital nas atividades do crente sincero.
No entanto, a contribuição recebida por Pedro, no cárcere, representa lição
para todos.
Sob cadeias pesadíssimas, o pescador de Cafarnaum vê aproximar­se o anjo
do Senhor, que o liberta, travessa em sua companhia os primeiros perigos na prisão,
caminha ao lado do mensageiro, ao longo de uma rua; contudo, o emissário afasta­
se, deixando­o novamente entregue à própria liberdade, de maneira a não
desvalorizar­lhe as iniciativas.
Essa exemplificação é típica.
Os auxílios do invisível são incontestáveis e jamais falham em suas
multiformes expressões, no momento oportuno; mas é imprescindível não se vicie o crente com essa espécie de cooperação, aprendendo a caminhar sozinho, usando a independência e a vontade no que é justo e útil, convicto de que se encontra no mundo para aprender, não lhe sendo permitido reclamar dos instrutores a solução de problemas necessários à sua condição de aluno.

PROMETER

“Prometendo­lhes liberdade, sendo eles mesmos servos da corrupção.” (I PEDRO, 2: 19)

É indispensável desconfiar de todas as promessas
de facilidades sobre o mundo. Jesus, que podia abrir os mais vastos horizontes
aos olhos assombrados da criatura,  prometeu­lhe  a  cruz  sem  a  qual  não  poderia  afastar­se  da  Terra  para colocar­se ao seu encontro.
Em  toda  parte,  existem  discípulos  descuidados  que  aceitam  o  logro  de aventureiros inconscientes. É que ainda não
aprenderam a lição viva do trabalho próprio a que foram chamados para desenvolver
atividade particular.
Os  fazedores  de  revoluções  e  os  donos  de  projetos  absurdos  prometem maravilhas. 
Mas,  se  são  vítimas  da  ambição,  servos  de  propósitos  inferiores, escravos de terríveis enganos, como poderão realizar para os outros a liberdade ou a elevação de que se conservam distantes?
Não  creias  em  salvadores  que  não  demonstrem  ações  que  confirmem  a salvação de si mesmos.
Deves saber que foste criado para gloriosa ascensão, mas que só é fácil descer. Subir exige trabalho, paciência, perseverança, condições essenciais para o encontro do amor e da sabedoria.
Se alguém te fala em valor das facilidades, não acredites; é possível que o aventureiro esteja descendo.
Mas quando te façam ver perspectivas consoladoras, através do suor e do esforço pessoal, aceita os alvitres com alegria. Aquele que compreende o tesouro oculto nos obstáculos, e dele se vale para enriquecer a vida, está subindo e é digno
de ser seguido.

CAPAS

“E ele, lançando de si a sua capa, levantou­se e foi ter com Jesus.” (MARCOS, 10: 50)

O Evangelho de Marcos apresenta interessante notícia sobre a cura de
Bartimeu, o cego de Jericó.
Para receber a bênção da divina aproximação, lança fora de si a capa,
correndo ao encontro do Mestre, alcançando novamente a visão para os olhos
apagados e tristes.
Não residirá nesse ato precioso símbolo?
As pessoas humanas exibem no mundo as capas mais diversas. Existem mantos de reis e de mendigos. Há muitos amigos do crime que dão preferência a “capas de santos”. Raros os que não colam ao rosto a máscara da própria conveniência. Alega­se que a luta humana permanece repleta de requisições variadas, que é imprescindível atender à movimentação do século; entretanto, se alguém deseja sinceramente a aproximação de Jesus, para a recepção de benefícios duradouros, lance fora de si a capa do mundo transitório e apresente­se ao Senhor, tal qual é, sem a ruinosa preocupação de manter a pretensa intangibilidade dos títulos efêmeros, sejam os da fortuna material ou os da exagerada noção de sofrimento. A manutenção de falsas aparências, diante do Cristo ou de seus mensageiros, complica a situação de quem necessita. Nada peças ao Senhor com exigências ou alegações descabidas. Despe a tua capa mundana e apresenta­te a Ele, sem mais nem menos.


AMAS O BASTANTE?

“Perguntou-­lhe  terceira  vez:  Simão,  filho  de  Jonas, amas­me?” (JOÃO, 21: 17)

Aos aprendizes menos avisados é estranhável que
Jesus houvesse indagado do apóstolo, por três vezes, quanto à segurança de
 seu amor. O próprio Simão Pedro, ouvindo a interrogação repetida, entristecera­se, supondo que o Mestre suspeitasse de seus sentimentos mais íntimos.
Contudo, o ensinamento é mais profundo.
Naquele  instante,  confiava­lhe  Jesus  o  ministério  da  cooperação  nos
serviços  redentores.  O  pescador  de  Cafarnaum  ia  contribuir na  elevação  de  seus
tutelados do mundo, ia apostolizar, alcançando
valores novos para a vida eterna.
Muito significativa, portanto, a pergunta do Senhor nesse particular. Jesus não  pede  informação  ao  discípulo,  com  respeito  aos  raciocínios  que  lhe  eram peculiares, não deseja inteirar­se dos conhecimentos do colaborador, relativamente a Ele,  não  reclama  compromisso  formal.  Pretende  saber  apenas  se  Pedro  o  ama, deixando  perceber  que,  com  o  amor,  as  demais  dificuldades  se  resolvem.  Se  o discípulo  possui  suficiente  provisão  dessa  essência  divina,  a  tarefa  mais  dura converte­se em apostolado de bênçãos promissoras.
É imperioso, desse modo, reconhecer que as tuas conquistas intelectuais valem muito, que tuas indagações são louváveis, mas em verdade somente serás efetivo e eficiente cooperador do Cristo se tiveres amor.

A COROA

“E  vestiram­-no  de  púrpura,  e  tecendo  uma  coroa  de espinhos, lha puseram na cabeça.”  (MARCOS, 15: 17)

Quase  incrível  o  grau  de  invigilância  da  maioria  dos  discípulos  do Evangelho, na atualidade, ansiosos pela coroa dos triunfos mundanos. Desde longo tempo, as Igrejas do Cristianismo deturpado se comprazem nos grandes espetáculos, através de  enormes demonstrações de  força política. E forçoso  é reconhecer  que grande número das agremiações espiritistas cristãs, ainda tão recentes no mundo,
tendem às mesmas inclinações.
Individualmente,  os  prosélitos  pretendem  o  bem­estar,  o  caminho  sem obstáculos,  as  considerações  honrosas  do  mundo,  o  respeito  de  todos,  o  fiel reconhecimento  dos  elevados  princípios  que  esposaram  na  vida,  por  parte  dos
estranhos. Quando essa bagagem de facilidades não os bafeja no serviço edificante, sentem­se perseguidos, contrariados, desditosos.
Mas... e o Cristo? Não bastaria o quadro da coroa de espinhos para atenuar­  nos a inquietação?
Naturalmente que o Mestre trazia consigo a Coroa da Vida; entretanto, não quis perder a oportunidade de revelar que a coroa da Terra ainda é de espinhos, de sofrimento  e  trabalho  incessante  para  os  que  desejem  escalar  a  montanha  da Ressurreição Divina. Ao tempo em que o Senhor inaugurou a Boa Nova entre os homens, os romanos coroavam­se de rosas; mas, legando­nos a sublime lição, Jesus dava­nos a entender que seus discípulos fiéis deveriam contar com distintivos de outra natureza.

O AMIGO OCULTO

“Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que
o não conhecessem.”  (LUCAS, 24: 16)

Os  discípulos,  a  caminho  de  Emaús,  comentavam,  amargurados,  os  acontecimentos terríveis do Calvário.
Permaneciam sob a tormenta da angústia. A dúvida penetrava­lhes a alma,  levando­os ao abatimento, à negação.
Um  homem  desconhecido,  porém,  alcançou­os  na  estrada.  Oferecia  o aspecto de mísero peregrino.
Sem identificar­se, esclareceu as verdades da Escritura, exaltou a cruz e o  sofrimento.
Ambos  os  companheiros,  que  se  haviam  emaranhado  no  cipoal  de  contradições  ingratas,  experimentaram  agradável  bem­estar,  ouvindo  a  argumentação confortadora.
Somente  ao  termo  da  viagem,  em  se  sentindo  fortalecidos  no  tépido  ambiente da hospedaria, perceberam que o desconhecido era o Mestre.
Ainda existem aprendizes na “estrada simbólica de Emaús”, todos os dias.
Atingem o Evangelho e espantam­se em face dos sacrifícios necessários à eterna  iluminação  espiritual.  Não  entendem  o  ambiente  divino  da  cruz  e  procuram  “paisagens  mentais”  distantes...  Entretanto,  chega  sempre  um  desconhecido  que caminha  ao  lado  dos  que  vacilam  e  fogem.  Tem  a  forma  de  um  viandante incompreendido, de um companheiro inesperado, de um velho generoso, de uma criança tímida. Sua voz é diferente das outras, seus esclarecimentos mais firmesseus apelos mais doces.
Quem  partilha,  por  um  momento,  do  banquete  da  cruz,  jamais  poderá
olvidá­la. Muitas vezes, partirá mundo a fora, demorando­se nos trilhos escuros; no
entanto,  minuto  virá  em  que  Jesus,  de  maneira  imprevista,  busca  esses  viajores transviados e não os desampara enquanto não os contempla, seguros e livresna hospedaria da confiança.

AO SALVAR­NOS

“Salva­te a ti mesmo e desce da cruz.” (MARCOS, 15: 30)

Esse grito de ironia dos homens maliciosos
continua vibrando através dos séculos.

A  criatura  humana  não  podia  compreender  o  sacrifício  do  Salvador.  A Terra  apenas  conhecia  vencedores  que  chegavam  brandindo  armas,  cobertos  de
glórias  sanguinolentas,  heróis  da  destruição  e  da  morte,  a  caminho  de  altares  e monumentos de pedra.
Aquele Messias, porém, distanciara­se do padrão habitual. Para conquistar,
dava de si mesmo; a fim de possuir, nada
pretendia dos omens para si próprio; no

propósito de enriquecer a vida, entregava­se à morte.
Em  vista  disso,  não  faltaram  os  escarnecedores 
no  momento  extremo, interpelando o Divino Triunfador, com mordaz expressão.

Nesse testemunho, ensinou­nos o Mestre que, ao nos salvarmos, no campo
da  maldade  e  da  ignorância  ouviremos  o  grito  da  malícia 
geral,  nas  mesmas circunstâncias.
Se nos demoramos colados à ilusão do destaque, se somos trabalhadores
exclusivamente interessados em nosso engrandecimento temporário na esfera carnal,
com  esquecimento  das  necessidades  alheias,  há  sempre  muita  gente  que  nos considera  privilegiados  e  vitoriosos;  se  ponderamos,  no  entanto,  as  nossas responsabilidades graves no mundo, chama­nos loucos e, quando nos surpreende em
experiências  culminantes,  revestidas  da  dor  sagrada  que  nos  arrebata  a  esferas sublimes,  passa  junto  de  nós  exibindo  gestos  irônicos  e,  recordando  os  altos princípios esposados por nossa vida, exclama, desdenhosa: — “Salva­te a ti mesmo e desce da cruz.”

ALEGRIA CRISTÃ

“Mas a vossa tristeza se converterá em alegria.” Jesus (JOÃO, 16: 20)

Nas horas que precederam a agonia da cruz, os discípulos não conseguiam disfarçar a dor, o desapontamento.
Estavam tristes. Como pessoas humanas, não entendiam outras vitórias que
não  fossem  as  da  Terra.  Mas  Jesus,  com  vigorosa  serenidade,  exortava­os:  “Na verdade, na verdade, vos digo que vós chorareis e vos lamentareis; o mundo se alegrará e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria.”
Através de séculos, viu­se no Evangelho um conjunto de notícias dolorosas —  um  Salvador  abnegado e  puro  conduzido  ao  madeiro  destinado  aos  infames, discípulos debandados, perseguições sem conta, martírios e lágrimas para todos os seguidores...
No entanto, essa pesada bagagem de sofrimentos constitui os alicerces de
uma vida superior, repleta de paz e alegria. Essas dores representam auxílio de Deus à terra estéril dos corações humanos. Chegam como adubo divino aos sentimentos
das  criaturas  terrestres,  para  que  de  pântanos  desprezados  nasçam  lírios  de
esperança.
Os  inquietos  salvadores  da  política  e  da  ciência,  na  Crosta  Planetária,
receitam  repouso  e  prazer  a  fim  de  que  o  espírito  chore  depois,  por  tempo
indeterminado, atirado aos desvãos sombrios da consciência ferida pelas atitudes
criminosas.  Cristo,  porém,  evidenciando  suprema  sabedoria,  ensinou  a  ordem
natural para a aquisição das alegrias eternas, demonstrando que fornecer caprichos
satisfeitos, sem advertência e medida, às criaturas do mundo, no presente estado
evolutivo, é depor substâncias perigosas em mãos infantis. Por esse motivo, reservou
trabalhos  e  sacrifícios  aos  companheiros  amados,  para  que  se  não perdessem na ilusão e chegassem à vida real com valioso patrimônio de estáveis edificações.
Eis por que a alegria cristã não consta de prazeres da inconsciência, mas da
sublime certeza de que todas as dores são caminhos para júbilos imortais.

CAMPO DE SANGUE

“por isso foi chamado aquele campo, até ao dia de hoje,
Campo de Sangue.” (MATEUS, 27: 8)

Desorientado, em vista das terríveis conseqüências de sua irreflexão, Judas procurou  os  sacerdotes  e restituiu­lhes  as trinta moedas, atirando­as,  a  esmo, no recinto do Templo.
Os  mentores  do  Judaísmo  concluíram,  então,  que  o  dinheiro  constituía
preço de sangue e, buscando desfazer­se rapidamente de sua posse, adquiriram um campo destinado ao sepulcro dos estrangeiros, denominado, desde então, Campo de Sangue.
Profunda a expressão simbólica dessa recordação e, com a sua luz, cabe­nos
reconhecer  que  a  maioria  dos  homens  continua  a  irrefletida  ação  de  Judas,
permutando  o  Mestre,  inconscientemente,  por  esperanças  injustas,  por  vantagens materiais,  por  privilégios  passageiros.  Quando  podem  examinar  a  extensão os enganos a que se acolheram, procuram, desesperados, os comparsas de suas ilusões, tentando devolver­  lhes quanto lhes coube nos criminosos movimentos em que se comprometeram  na  luta  humana;  todavia,  com  esses  frutos  amargos  apenas conseguem  adquirir  o  campo  de  sangue  das  expiações  dolorosas  e ásperas, para sepulcro dos cadáveres de seus pesadelos delituosos, estranhos ao ideal divino da perfeição em Jesus Cristo.
Irmão em humanidade, que ainda não pudeste sair do campo milenário das
reencarnações, em luta por enterrar os pretéritos crimes que não se coadunam com a
Lei Eterna, não troques o Cristo Imperecível por um punhado de cinzas misérrimas,
porque, do contrário, continuarás circunscrito à região escura da carne sangrenta.

ENSEJO AO BEM

“Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste?
— Então, aproximando­se, lançaram mão de Jesus e o prenderam.” (MATEUS, 26: 50)

É  significativo  observar  o  otimismo  do  Mestre,  prodigalizando
oportunidades ao bem, até ao fim de sua gloriosa
missão de verdade e amor, junto dos homens.
Cientificara­se  o  Cristo,  com  respeito  ao  desvio  de  Judas,  comentara
amorosamente o assunto, na derradeira reunião mais
 íntima com os discípulos, não guardava qualquer dúvida relativamente aos suplícios
que o esperavam; no entanto, em se aproximando, o cooperador transviado beija­o na face, identificando­o perante os  verdugos,  e  o  Mestre,  com  sublime  serenidade,  recebe­lhe  a  saudação carinhosamente e indaga: Amigo, a que vieste?
Seu coração misericordioso proporcionava ao
discípulo inquieto o ensejo ao bem, até ao derradeiro instante.
Embora notasse  Judas  em  companhia  dos  guardas  que  lhe  efetuariam  a
prisão, dá­lhe o título de amigo. Não lhe retira a confiança do minuto primeiro, não
o  maldiz, não  se  entrega  a  queixas  inúteis, não o  recomenda à  posteridade  com
acusações ou conceitos menos dignos.
Nesse  gesto  de  inolvidável  beleza  espiritual,  ensinou­nos  Jesus  que  é
preciso oferecer portas ao bem, até à última hora das experiências terrestres, ainda
que, ao término da derradeira oportunidade, nada mais reste além do caminho para o
martírio ou para a cruz dos supremos testemunhos.

O FRACASSO DE PEDRO

“E  Pedro  o  seguiu,  de  longe,  até  ao  pátio  do 
sumo­ sacerdote e, entrando, assentou­se entre os criados para ver o fim.” (MATEUS, 26: 58)

O fracasso, como qualquer êxito, tem suas causas positivas.
A negação de Pedro sempre constitui assunto de palpitante interesse nas
comunidades do Cristianismo.
Enquadrar­se­ia a queda moral do generoso amigo do Mestre num plano de
fatalidade?  Por  que  se negaria  Simão  a  cooperar  com  o  Senhor  em  minutos  tão difíceis?
Útil, nesse particular, é o exame de sua invigilância.
O fracasso do amoroso pescador reside aí dentro, na desatenção para com
as advertências recebidas.
Grande número de discípulos modernos participam das mesmas negações,
em razão de continuarem desatendendo.
Informa  o  Evangelho  que,  naquela  hora  de  trabalhos  supremos,  Simão
Pedro seguia o Mestre “de longe”, ficou no “pátio do sumo­sacerdote”, e “assentou­
se entre os criados” deste, para “ver o fim”.
Leitura cuidadosa do texto esclarece­nos o entendimento e reconhecemos
que,  ainda  hoje,  muitos  amigos  do  Evangelho  prosseguem  caindo  em  suas
aspirações  e  esperanças,  por  acompanharem  o  Cristo  a  distância,  receosos  de
perderem  gratificações  imediatistas;  quando  chamados  a  testemunho  importante, demoram­se  nas  vizinhanças  da  arena  de  lutas  redentoras,  entre  os servos das convenções utilitaristas, assestando binóculos de exame, a fim de observarem como será o fim dos serviços alheios.
Todos os aprendizes, nessas condições, naturalmente fracassarão e chorarão
amargamente.

VELAR COM JESUS

“E  voltando  para  os  seus  discípulos,  achou­ os
adormecidos e disse a Pedro: Então, nem uma hora pudeste velar comigo?” (MATEUS, 26: 40)

Jesus veio à Terra acordar os homens para a vida maior.
É interessante lembrar, todavia, que, em sentindo a
necessidade de alguém para acompanhá­-lo no supremo testemunho, não convidou seguidores tímidos ou
beneficiados da véspera e, sim, os discípulos conscientes
das próprias obrigações.
Entretanto, esses mesmos dormiram, intensificando a solidão
do Divino Enviado.
É  indispensável  rememoremos  o  texto  evangélico  para  considerar  que  o Mestre  continua  em  esforço  incessante  e  prossegue  convocando  cooperadores
devotados à colaboração necessária. Claro que não confia
tarefas de importância fundamental a Espíritos inexperientes ou ignorantes; mas,
é imperioso reconhecer o reduzido número daqueles que não adormecem no mundo, enquanto Jesus aguarda
resultados da incumbência que lhes foi cometida.
Olvidando o mandato de que são portadores, inquietam­se pela execução dos próprios desejos, a observarem em grande conta os dias rápidos que o corpo físico lhes oferece. Esquecem­se de que a vida é a eternidade e que a existência terrestre não passa simbolicamente de “uma hora”. Em vista disso, ao despertarem
na realidade espiritual, os obreiros distraídos choram sob o látego da consciência e
anseiam pelo reencontro da paz do Salvador, mas ecoam­lhes ao ouvido as palavras
endereçadas a Pedro: Então, nem por uma hora pudeste velar comigo?
E, em verdade, se ainda não podemos permanecer com o Cristo, ao menos
uma hora, como pretendermos a divina união para a eternidade?

POR QUE DORMES?

“E disse­lhes: Por que estais dormindo? Levantai­vos e
orai, para que não entreis em tentação.” (LUCAS, 22: 46)

Nos  ensinos  fundamentais  de  Jesus,  é  imperioso  evitar  as  situações acomodatícias, em detrimento das atividades do bem.
O Evangelho de Lucas, nesta passagem, conta que s iscípulos “dormiam de tristeza”, enquanto o Mestre orava fervorosamente o orto. Vê­se, pois, que o Senhor não justificou nem mesmo a inatividade riunda o hoque ante as grandes dores.
O aprendiz figurará o mundo como sendo o campo de rabalho o Reino, onde se esforçará, operoso e vigilante, ompreendendo que o risto prossegue em serviço redentor para o resgate total das criaturas.
Recordando  a  prece  em  Getsêmani,  somos  obrigados  a  lembrar  que inúmeras comunidades de alicerces cristãos permanecem dormindo nas convivências
pessoais,  nos  mesquinhos  interesses,  nas  vaidades  efêmeras.  Falam  do  Cristo,
referem­se  à  sua  imperecível  exemplificação,  como  se  fossem  sonâmbulos,
inconscientes do que dizem e do que fazem, para despertarem tão­só no instante da morte corporal, em soluços tardios.
Ouçamos  a  interrogação  do  Salvador  e  busquemos  a  edificação  e  o trabalho,  onde  não  existem  lugares  vagos  para  o  que  seja  inútil  e  ruinoso  à consciência.
Quanto  a  ti,  que  ainda  te  encontras  na  carne,  não  durmas  em  espírito,
desatendendo aos interesses do Redentor. Levanta­te e esforça­te, porque é no sono da  alma  que  se  encontram  as  mais  perigosas  tentações,  através  de  pesadelos  ou fantasias.

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